Poesia

MIGUEL_COSTA ॐ FILHO DO VENTO

ALMA MESTIÇA “Nem Cristão, ou Judeu, nem Muçulmano, Hindú, Budista, Sufi ou Zen. Nenhuma religião, ou sistema cultural. Eu não sou do Leste ou do Oeste, não vim do oceano, nem do solo, nem natural ou etérico, nem composto de elementos de jeito nenhum. Eu não existo, não sou uma entidade, neste mundo, ou no próximo, Não decendo de Adão e Eva, ou nenhuma estória da criação. Meu lugar é um não lugar, um traço do não traçado. Nem corpo nem alma, eu pertenço ao Amado, vi os dois mundos como Um, e este Um para chamar, e conhecer – primeiro, último, fora, dentro, apenas este sopro, soprando ser humano.” Rumi

Últimas

Pacto

Pacto

O primeiro raio da manhä

rasgou a penumbra do quarto.

pude ver os contornos do teu corpo nú

esparramado pela cama,

adormecido e velado por anjos e demônios.

anjos?

demônios?

pouco me importa o que eles säo,

pois os vejo jogando xadrez,

quando estäo de folga.

Ali,tu estavas

exausta,depois de um banquete carnal

provada,dos pés à cabeça,

pelos abismos suaves da noite.

devoraste a chama,

a luz consumida

e na profundidade do breu,

um só,nos tornamos.

prazer intenso,teso,rochoso,

dolorido de täo sentido…

tua pele morena,na luz do luar

ardia em brasa,

revelando o encontro do sol

com a lua cheia da primavera;

minhas digitais tatuadas em teu corpo

forjadas,a ferro e fogo.

Nos achamos civilizados,polidos e perfumados,

mas a natureza sempre uiva,grita,

degladia,

mesmo sufocada na frigidez,

a fera sempre acaba por despertar.

ela nos lambe os sentidos,

se aguça com o cheiro do cio,

se esfrega nos rastros deixados pela caça,

devora tudo que é irreal;

arranha,assanha,rasga,mastiga,esfola

as redomas invisíveis que nos tornam ilhas

e resgatam os náufragos

da sensatez imaginária.

Surreal é näo te querer!

e näo se entorpecer

com a libido que exala por todos os teus poros.

te desejo além dos medos,

te desejo além das distâncias,

te desejo além do que chamam de moral;

te possuo além do bem e do mal,

do certo e errado que nos disseram pra acreditar;

ter o teu gosto passou a ser a minha verdade,

ser atemporal dentro de ti.

fazer da cópula,uma dança à dois,

em ode a Eros.

comungo com a Deusa uterina que me acolhe,em verso

coloco-te de joelhos e derramo a seiva em tua boca,

te dou de beber o néctar sagrado,

levo-te ao Éden,ao sutra nirvânico do paraíso perdido;

provas o veneno da serpente,

enquanto eu saboreio a delícia da maçä,

juntos,somos o Gênesis.

teu cavalgar,

minha oraçao;

minha graça,

tua redençäo;

meu milagre,

tua bençao.

Os santos nos oferecem um quarto e sala no céu;

Anjos caídos,um castelo no inferno…

pecado é näo te amar.

essa é a minha única certeza!

seguirei ao teu lado,

hipnótico,teleguiado,

flutuando para onde for.

eclipse solar,supernova estelar

ofereço o meu fervor,

diante do teu altar!

cultuo a tua carne,

à flor da pele,

no encontro das almas.

versos tântricos,

que agraciam a fé

de quem ama e acredita no amor.

*para Beatriz,uma mulher inesquecível.

Miguel Costa

ALUCINAÇÒES

subsiste algo da perdição
das madrugadas

sinfonias inquietas
dormem nos meus olhos

trago palavras jamais pronunciadas
e desejos acumulados
buscando uma praia

uma partitura
caminha sem pautas ou regente

melodia isolada
de movimento e vida
desaguando no poema

Jade Dantas

 

 

 

 

 

DEVOTION


“…Eu
dançaria contigo descalça, debaixo da chuva mais fria. Beberia da tua
boca as palavras mais tolas e as transformaria em riso, porque sei da
tua essência de menino, da beleza e da leveza do teu ser. Eu seria capaz
de render a minha alma à tua boca e de caminhar ao teu lado, por
caminhos de pedras e espinhos. Não me importaria de pintar o céu de
outra cor, só para ver nos teus olhos o espetáculo da surpresa. Gosto de
te beijar assim, cheio de espanto das coisas lindas do mundo. Por ti,
viveria clandestina em minha própria terra e dormiria feliz no mais
profundo dos abismos. Amar-te-ia sem limites, porque limitar o amor é
como tolher as asas de um beija-flor. Ah, vida minha! Por ti, eu seria
verdadeiramente feliz. Ficaria grávida de sonhos, todos os dias, e daria
a eles o teu nome…”

Tríccia Araújo

 

 

TORCIDA

Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você.

Tinha gente que torcia para você ser menino. Outros torciam para
você ser menina.Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do
pai. Estavam torcendo para você nascer perfeito.

Daí continuaram torcendo. Torceram pelo seu primeiro sorriso,
pela primeira palavra, pelo primeiro passo. O seu primeiro dia de escola
foi a maior torcida. E o primeiro gol, então? E de tanto torcerem por
você, você aprendeu a torcer.

Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai
Noel. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por
hambúrguer e refrigerante. Começou a torcer até para um time.
Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce
diferente de você. Seus pais torciam para você comer de boca fechada,
tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano. Eles só estavam
torcendo para você ser uma pessoa bacana. Seus amigos torciam para você
usar brinco, cabular aula, falar palavrão. Eles também estavam torcendo
para você ser bacana. Nessas horas, você só torcia para não ter nascido.
E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido. Torceu para seus
irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir. E quando os hormônios
começaram a torcer, torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso.
Depois começou a torcer pela sua liberdade.

Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua. Sua mãe
só torcia para você chegar vivo em casa. Passou a torcer o nariz para as
roupas da sua irmã, para as idéias dos professores e para qualquer
opinião dos seus pais. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. Foi
quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser
médico, músico, advogado. Na dúvida, torceu para ser físico nuclear ou
jogador de futebol.

Seus pais torciam para passar logo essa fase. No dia do
vestibular, uma grande torcida se formou. Pais, avós, vizinhos,
namoradas e todos os santos torceram por você.

Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita,
esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na
cantina.

E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto
olhar para ela. Primeiro, torceu para ela não ter outro. Torceu para ela
não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro.
Descobriu que ela torcia igual a você. E de repente vocês estavam
torcendo para não acordar desse sonho. Torceram para ganhar a geladeira,
o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel.

E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida.
Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tem muita gente torcendo por
ele. Mesmo com toda essa torcida, pode ser que você ainda não tenha
conquistado algumas coisas. Mas muita gente ainda torce por você!

Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) do
mundo, mas a poesia (inexplicável) da vida.

(Carlos Drummond de Andrade)

O sentido da vida

“O verdadeiro sentido da vida
É ter a impressão que se tem tudo,
mesmo quando falta muito.
É ter esperança mesmo quando a tristeza
insiste em nos alcançar.
É saber a hora de parar
e escolher outros caminhos.
É tentar conhecer um pouco de você.
E expandir tudo que você tem de bom.
É enfrentar as lágrimas,
e, delas buscar um sorriso.
E acreditar que tudo pode acontecer.
E cada experiência é única
E cada amanhecer é mágico.”

VENHA O TEU REINO

AMAMOS UM TEMPO AINDA NÃO CHEGADO.

ELE CRESCE DENTRO DE NÓS.

E OS NOSSOS GESTOS SE TORNAM DANÇAS, LUTAS MÁGICAS…

DO FUTURO, CANÇÕES DE HÁ MUITO TEMPO…

ESPERANÇA: NÓS A OUVIMOS…

FÉ: NÓS A DANÇAMOS…

“VENHA O TEU REINO…”

Rubens Alves

 

A Luz

Um dia, o sol admitiu:
Sou apenas uma sombra,
quisera poder mostrar-te a infinita incandescência
que lançou minha imagem brilhante.
Quisera poder mostrar-te,quando você se sentir só ou na escuridão,
a surpreendente luz do seu próprio ser.

Hafiz-e Shirazi -

 

Trecho do “Pequeno Príncipe” de Saint Exupery

Que quer dizer “cativar”?
– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.
Significa “criar laços…”
… -Criar laços?
-
Exatamente, disse a raposa.
Tu não és para mim senão um garoto
inteiramente
igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade
de ti.
E tu não tens também necessidade de mim.
Não passo a teus olhos
de uma raposa igual a cem mil outras raposas.
Mas, se tu me cativas, nós
teremos necessidade um do outro.
Serás para mim único no mundo.
E eu
serei para ti única no mundo…

Vês, lá longe, os campos de
trigo?
Eu não como pão. O trigo para mim é inútil.
Os campos de trigo
não me lembram coisa alguma.
E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de
ouro.
Então será maravilhoso quando me tiveres cativado.
O trigo, que é
dourado, fará lembrar-me de ti.

E eu amarei o barulho do vento no trigo…

 

Gota d’água no oceano

Gota d’água no oceano
Bertolt Brecht

O verão chega, e o céu do verão
Ilumina também vocês.
Morna é a água, e na água morna
Também vocês se banham.
Nos prados verdes vocês
Armaram suas barracas. As ruas
Ouvem os seus cantos. A floresta
Acolhe vocês. Logo

É o fim da miséria? Há alguma melhora?
Tudo dá certo? Chegou então sua hora?
O mundo segue seu plano? Não:
É só uma gota no oceano.

A floresta acolheu os rejeitados. O céu bonito
Brilha sobre desesperançados. As barracas de verão
Abrigam gente sem teto.
A gente que se banha na água morna
Não comeu. A gente
Que andava na estrada apenas continuou
Sua incessante busca de trabalho.

Não é o fim da miséria. Não há melhora.
Nada vai certo. Não chegou sua hora.
O mundo não segue seu plano:
É só uma gota no oceano.

Vocês se contentarão com o céu luminoso?
Não mais sairão da água morna?
Ficarão retidos na floresta?
Estarão sendo iludidos? Sendo consolados?
O mundo espera por suas exigências.
Precisa de seu descontentamento, suas sugestões.
O mundo olha para vocês com um resto de esperança.

É tempo de não mais se contentarem
Com essas gotas no oceano.

Oh sim! Eu gosto do céu luminoso.
Das estrelas, da lua e do sol.
E também do nublado
E de quando está para chover.

Também gosto da água morna,
mas ainda mais da fria, bem fria… no verão.
E da quente, no inverno.

Gosto da floresta e suas árvores.
As copas distantes e o chão firme.

Gosto das flores.
Dos seus aromas.
Frísias, rosas, jasmins.
Angélicas e flor de laranjeira.

Gosto de incensos.
De velas.
De luz e de sombras…

Gosto de café, chá e de pessoas
que sabem conversar sobre isso tudo
… e mais um montão.

Gosto de música, borboletas
e outras coisas mais.

E também desgosto de muitos e muitas…

As gotas do oceano, me bastam.
As vezes.

Mas, geralmente, quero a praia inteira.
O Oceano, seus peixes, mamíferos e crustáceos.
E os corais.
E também os moluscos, com suas conchas!
As correntes.
E as algas.

É demais?
Só as vezes.

Cesar R K

Dueto Quadrante para Um Fauno

Dueto Quadrante para Um Fauno

Metade em mim é curva
A outra metade é reta
Não o que se mede
Nem o que escapa ou perde
É a metade correta
Do ponto que se reflete.

Metade em mim é terra
a outra metade é mar.
Não por onde se navega
Ou se colhe desventura
O caminho que me profana
É o destino que se aventura.

Metade em mim é labirinto
A outra metade é encontro.
Não o que se nega no espelho
Nem na face se escreve
A linha que se desfia
No mesmo rumo se tece.

Metade em mim é palavra
Que se completa com o silêncio.
A pedra é o que se define
O verbo só se revela
Não por acaso ou sorte
De quem persegue ou apela.

Metade de mim se perdeu
A outra metade não conta.
Não por desejo ou claridade
O fogo da noite é tormenta
toda alma tem a idade
Do corpo que se inventa.

Metade em mim se comove
A outra metade é atenta.
Não que a mão traga pronta
a sina de cada verso
Embora a rima esconda
O metro do universo.

Ubirajara Mello de Almeida

…………………………………..

Metade em mim é flor
A outra metade é dor
Não o que se sente
Nem o que faz chorar ou rir
É a metade ferida
Que ainda me faz sorrir.

Metade de mim é aço
A outra é chão
Não por onde se trabalha
Ou se é reconhecido
A metade que me inflama
É a sorte da paixão

Metade de mim é espelho
A outra metade é imagem
Não o que se nega no espectro
Nem na sorte lançada
A via que se caminha
É teia embaraçada.

Metade de mim é silêncio
Que se completa com poesia
O livro que o define
Só a letra revela
Pelo desejo da família
Que se cumpre na elegia.

Metade de mim encontrei
A outra metade me amedronta
Não por querer ou vontade
A luz da noite é amena
Todo tempo que passa
Deixa uma saudade pequena.

Metade de mim voa
a outra metade é lenta
Não que Hermes interrompa
A viagem em cada passo
Embora as asas ligeiras
Correm e não deixam rastro.

Jandira Mello de Almeida Cahet

Metade de mim é lógica
A outra metade é emoção
Não o que se vasculha
Nem o que me invade
É a metade incontrolável
Que dá razão à sensibilidade.

Metade de mim é terra
A outra metade é pântano
Não por onde se desfaleça
Ou se caia e feneça
É onde o medo aparece
E o desafio enternece.

Metade de mim é razão
A outra metade é sentimento
Não o que se nega à entrega
Nem que vive só de momento
É a forma de conhecer
Que se tece sem lamento.

Metade de mim é discurso
Que se completa com ação
O silencio que os define
É oriundo da reflexão,
o autoconhecimento
que provoca o pensamento.

Metade de mim é asa
A outra metade é raiz
Não por desejo
e nem mesmo por contradição
Cada um é uma casa
Onde habita o coração.

Metade de mim se encanta
A outra metade se cansa
Não que a vida seja mansa
Basta caminhar como criança
Embora o escrito não precise fiança,
O tamanho dos feitos é que o alcança.

Metade de mim é paz
A outra metade erupção
Minha alma é grande e tudo faz
E busca a comunhão
Mas quando dela se desfaz
Fica em ponto de ebulição.

Metade de mim é Natal
A outra metade, ano novo
Um desejo de permanência,
Lindo como cristal,
Mesclado com a imanência
De alcançar outro manancial.

Metade de mim é diamante
A outra metade é cascalho
Como pode o pretenso amante
Ser lapidado de um só talho?

Metade de mim gostou
A outra metade quer mais
Desse escrito que terminou
Mas que já soa como demais

Cesar Ricardo Koefender

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.